Educar não é transferir saber de quem sabe pra quem não sabe: é um encontro entre saberes diferentes, mediado pelo mundo, em que todos aprendem.
A frase é do Paulo Freire, e resume algo que hoje é a base de como penso mentoria: "ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo." Ela nega de uma vez as duas fantasias mais comuns sobre aprendizagem: a do professor que deposita conhecimento em alguém, e a do autodidata que aprende sozinho. O que sobra é o encontro: pessoas aprendem umas com as outras, com o mundo real como mediação.
Algumas ideias de Freire que carrego junto dessa, e que uso literalmente como critério prático:
- A humildade é postura epistemológica, não gentileza: "ninguém é superior a ninguém."
- Diferença de repertório não é hierarquia: "não há saber mais ou saber menos. Há saberes diferentes."
- A incompletude é universal: "ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre."
Já mentorei mais de 3.000 profissionais de produto ao longo dos anos, entre iniciantes e executivos de grandes empresas, e essa é a lente que uso: toda relação estruturada de aprendizagem (mentoria, onboarding, formação de PMs, liderança de time) funciona melhor quando desenhada como troca entre saberes diferentes, não como transmissão de um estoque de respostas prontas.
O mentor que se coloca como fonte única bloqueia exatamente o mecanismo pelo qual as pessoas aprendem: a elaboração conjunta, mediada por problemas reais. Na prática, isso significa trocar aula expositiva por conversa sobre os casos concretos de quem estou mentorando, tratar a experiência da pessoa como saber legítimo, e medir sucesso pela autonomia gerada, não pela dependência criada.